segunda-feira, 1 de março de 2010

Longínqua

Ao longe o gamo salta
Manhã cedo na savana
O capim seco e alto
Desespera já

Queima o calor
Onde se esconde
O predador.

O rugido é quando a dor
Cansada da corrida
Se entrega em frenesim
Ao final da vida.

O voraz alado
Vigia o capim
Lá do azul pesado.

O pó recusa a brisa
Salpica os bichos
Quando empurrado
Pela feroz batalha.

O sangue escorre
Na pisada palha
O gamo morre.


Beja, 26.11.09

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Fim de tarde

Púrpura flor só
Que iluminas o ocaso
Neste resto de dia.
Não cabe no teu vaso
Toda a alegria
De te poder soprar
Em derradeiro expiro
Um pouco de vento.

Desse vento que choras
Quando ouves chegar
Prestes a luz diáfana
Acordada pelo chilreio
De um bando de pardais.
São crianças no recreio
Que cantam a azáfama
Dos voos matinais.

Que forma mais bela
Esse teu pendor altivo
Perante a certeza
De nunca mais voltar
A viver um momento
Para poder olhar
Tanta grandeza
Tanto movimento.

Anunciada calma
De pastos verdes
Promessa feita
Entre paredes
Numa cama
Onde agora jaz
Uma alma
Desfeita.

Madrugadora
Névoa
que
Se
Faz
Em
Nada
.

24.11.2009

Promessa

Poucas palavras são demais
Para dizer o que já não sinto.
E mais minto se disser ao vento
Que ainda há muito que navegar.

Cordame tendido de vendavais
Há-de parecer a quem olhar
Que aquele contentamento
Nunca houvera de acabar.

Mas quis antes o mau destino
Fazer surgir bem a meio mar
Na voz cantada de uma sereia

Com céu revolto em desatino
Num sonho de espantar
Uma promessa de lua cheia.




Beja 23.11.2009

Feiticeira

Pela bruma azul de uma manhã
Molhada rua de orvalhos
Promessa de primavera
Vi-te chegar.

Neblina de flores
Em diáfano bailado
Sereia de doce andar
Olhar de quimera
Sorriste âmbar.

Revelam-se profundezas
Silêncios agargantados
Miradas esquivas
Mar de incertezas
Coraste o mundo.

De tanto colorir
Este ar que respiro
Teu corpo exala o desejo
Que me trespassa o peito
De dar-te um beijo.

Não contente meu sonho
Levou-me em asas brandas
Viver o futuro
Que agora passou.
Suspiraste a lua.

Por fim, cansado
Quase morto
Vejo outro passado
Com outra rua
Como aquela
Onde ficaste nua.


21.11.09 Beja

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Relógio

Porque rodas tu relógio
Como se quisesses voltar
Numa corrida louca
Sempre ao mesmo lugar?

E porque não páras tu
Em resoluta imobilidade
Quando chega sem aviso
O fim de uma idade?

Minutos que desgastas
Em certezas de chegar
E nem um ousa sequer

Em revolta espectacular
Rodar contra o destino
Dessa vida que arrastas.

Beja, 18.11.2009

Abrigo

Por não ser fui buscar
Ao fundo do inferno
A voz de um caminho
Que me dissesse ao menos
Onde fica esse lugar.

Sábio e mago
Senhor e doutor
Fulano engenheiro
Gente de olhar vago
Que por não sentir dor
Melhor soubesse dizer
Onde fica tal lugar.

Entre caminhos tortos
Estradas de países remotos
Debaixo de chuva fria
Desertos em brasa
Alguem que me diga
Onde fica aquela casa.

Numa vaga névoa
Uma sombra sem tino
Quase quebra o silêncio
Onde se esconde tremida
A voz do viajante
Em busca do seu destino.

E ninguém no seu juízo
Com olhar mais atento
De quem nunca duvida
Poderá jurar de pé
Que atrás aquele vento
Há-de haver uma guarida.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Ícaro

Caí! Mais uma vez, Caí!
Tombei do sonhar alto
Por fugir à mesquinhês
Dos que vivem o fim do mês
Junto ao solo de asfalto.

E mais uma vez me levanto!
Uma; e outra; e outra ainda,
E tantas quantas eu cair,
E ainda mais uma vez!

E se o dia chegar
Em que eu ouse aprender,
Sem cair!,
O segredo fino de voar,
Ainda mais alto hei-de subir!

Leonel Auxiliar 1995/96

Ocaso

Aqui é o ocaso
E minh' alma cansada,
Confessa poemas
Perdidos nas rugas
Da roupa que tem por morada.

Pintou-se de brumas, de sangue,
de flores, de noivo, de luto
E de mil cores e dores

Entre as brasas que pisou,
Bebeu néctar e lodo,
Comeu natas e nadas e pão!
Pão que o diabo amassou!

Agora rima,
Perdida, caída,
Mas não vencida,
Por ter ousado, um dia,
Haver vestido a vida!

Leonel Auxiliar 1995/96

Rumores

Há rumores na cidade!
Dizem os que chegam do mar.
Uns, só por necessidade,
Outros porque querem voar.

Geometria improvável
Esta que me desenha o ser:
Entre a vontade de viver,
Passa a linha do sofrer.
E não cabe neste poema
A necessidade de morrer.

Vê tu, Nau que minh' alma levas,
Quão mais altas são estas marés,
Que se não fossem ao rés-vés,
Haviam de trazer as trevas,
Escuras e feias teias,
Que mais não têm que fazer
Do que fazer-me viver!

Leonel Auxiliar 2008

Navio

Numa parede esticada
No meio da janela
Quase quadriculada,
Vi chegar uma alma.

Respirar? Não sei se sabia!
Andar? Talvez não!
Mas o certo é que ia
Muito, muito apressada.

Voava quiçá, lágrima presa,
Nos olhos, o vazio cheio
Duma dor desconhecida.
E um peito que inchava!
Melhor dizendo: ofegava!

Era de certo uma vela
Que, avistada a foz do rio,
E não querendo ser navio,
Apenas ansiava
Beber todo o vazio!

Leonel Auxiliar 2008

Convés

Vês tu as torres além?
E aquelas sombras vermelhas,
Sangue de uvas velhas?
E sofres porém...

Até quando hás-de andar
Pelo convés desta vida,
Onde levas a passear
A tua alma caída?

Leonel Auxiliar 2008

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Esperando a Maré

Não me digas da tua espera!
Não me fales do vazio das horas;
Não me leves por qualquer rua
Onde aquela que tu adoras
Bela mulher de vestido, ou nua,
Ao sol, na praia, ao som da lua,
Por ser só quem queria ser,
Deixou de ser para ser só tua!

E se fores e não voltares,
Como o barco naufragado,
Mais fique do sonho dourado,
Do que os restos no fundo
Deste mar encrespado
Que cobre todo o mundo!


Leonel Auxiliar 2008