terça-feira, 1 de junho de 2010

Carta A Meus Filhos

Nem por sombras vos sei dizer
Das pedras, estradas, calçadas,
Dos passos, incontados, infinitos,
Em que me quis, um dia, perder...
Das horas, momentos, lamentos,
Da dor lancinante, do prazer,
Amores, paixões, namoros idos,
Das horas vagas, dias, meses,
Em que o diabo se perde às vezes...

Depois veio o tempo do recreio,
Do ócio, romarias e tantas festas,
Com Baco e Lira pelo meio,
Da folia louca, livre e sem arestas...
Cego pelo tempo que se não conta,
Surdo pelo vento que não tem idade,
Na certeza de que nada nos amedronta,
Descuidando a segura eternidade,
Jurei aos céus a imortalidade!

Em vão, porém, buscando na terra a paz,
Nos astros vislumbro, por um momento,
O que seria uma vida sem tormento,
Se jamais passasse nesses trilhos,
Onde agora, cansada, minh' alma jaz.

Olhando atrás e com remorso,
Apenas posso pedir-vos, meus filhos,
Que, se um dia virem esse corso,
Fujam correndo dessa luz,
Para que não tomem a mesma cruz!



Leonel Auxiliar 01.06.2010 (Dia da Criança)

1 comentário:

JML disse...

que possa eu dizer que já não saibas?

pegas nas letras, dás-lhe corpo. Às palavras, somas alma.

O produto: arrebatador. Cheio de ti. Repleto de vida. Vibrante.

Abraço: Kito